É impressionante como assuntos macabros atraem a atenção dos seres humanos. Eu não sou diferente. Pode colocar no jornal uma manchete sobre os resultados da última conferência internacional sobre o desenvolvimento dos países africanos, os resultados das eleições na África do Sul, os impactos das mudanças climáticas na disponibilidade de alimentos, mas nada tem comparação com uma manchete que diz: “Suposto tráfico de órgãos humanos abala a cidade de Tete”. É claro que vou correndo ler aquele babado novo. Nossa!
Antes da leitura já vou me perguntando: Será que estão dando aquele golpe do roubo de rins, largando o corpo numa banheira com gelo e um bilhetinho otário do lado dizendo: “procure um médico em 2 horas ou morrerás?” (lembra desse drama do boa-noite-Cinderela que circulou na internet?) Ou quem sabe seria alguma rede de milionários com problemas cardíacos enviando médicos assassinos capturar corações sadios no distante norte de Moçambique? Preciso ler a matéria imediatamente!!!
E é então, meu amigo, que começa a minha agonia. Leio aquela manchete tentadora, e ao ler o subtítulo já percebo que vai ser conteúdo para mais um caso no meu blog. O subtítulo dizia (prova na foto do jornal ao lado): “A polícia descobriu um corpo sem cabeça e sem órgãos genitais, facto que leva à suspeita de se tratar de mais um caso de extracção e tráfico de órgãos”.
Gente, a piada não terminou aí, a matéria é toda uma PÉROLA digna de ser lida na íntegra.
PRIMEIRO, o texto informa que foi encontrado um corpo sem cabeça e sem órgãos genitais, o que geraria, automaticamente, a suspeita de tráfico de órgãos. Alguém pode me explicar o nexo causal disso? Não percebi a conclusão lógica... Por que um corpo mutilado é consequentemente resultado de tráfico de órgãos?
SEGUNDO, mais adiante a matéria informa que em outra margem do rio foi encontrada uma cabeça sem corpo. Bem, então concluo que a cabeça não é um dos órgãos que estavam sendo traficados, certo? Até porque, cabeça não é um órgão, até onde chega o meu limitado conhecimento de anatomia.
TERCEIRO, alguém pode me explicar como se dá o tráfico de órgãos genitais? Deve haver um mercado para isso? Prefiro não entender.
QUARTO, a foto apresentada no jornal não é a da referida ponte (conheço muuuito bem aquela área. Pegaram qq ponte e tacaram no meio da matéria). A legenda da foto diz ainda que foram encontrados órgãos humanos na margem norte da ponte... Ah! Então afinal acharam os órgãos que haviam sido traficados?
QUINTO, após tecer sobre o assunto das cabeças, genitálias e tráfico, a matéria é concluída com um parágrafo sobre vítimas de acidentes de viação (rodoviários, no nosso português).
Eu preciso de lógicaaaa!!!!!!!!!! Bem, preciso dizer mais algo?